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CÂMARA FOTOQUÍMICA INOVADORA PARA O ESTUDO DO CÂNCER

março 27th, 2012

Há exatamente um ano, o projeto de construção de um equipamento inovador teve grande repercussão nas mídias nacionais – um reator fotoquímico com funcionamento à base de LED’s (Diodos Emissores de Luz) e controles eletrônicos que, além de um custo muito abaixo do aparelho padrão inglês, tem o bônus de ostentar o selo da sustentabilidade. À época, os pesquisadores Alzir Batista, docente do Departamento de Química da UFSCar – Universidade Federal de São Carlos, e João Fernando Possatto, técnico de laboratório do IFSC-USP – Instituto de Física de São Carlos, já haviam contado que interessados de diversas áreas de pesquisa os procuravam pedindo por especificidades na fabricação do aparelho, para atender a determinadas necessidades de pesquisa em seus próprios laboratórios.

Agora, a dupla voltou a intensificar os trabalhos para produzir um novo formato do reator, que já tem até outro nome e uma causa mais do que nobre. Batizado de “câmara fotoquímica”, o aparelho poderá ser aplicado em pesquisas contra o câncer.

“A ideia do reator foi bem aceita pelos colegas da comunidade”, comenta Alzir, orientador do projeto de pesquisa que foi tema da tese de mestrado de Possatto. “Mas há necessidades específicas para cada pesquisador e decidimos fazer uma mudança, não na ideia do equipamento, mas na concepção de seu formato”, esclarece ele. O desafio, agora, é adaptar a estrutura do bem sucedido desenvolvimento às demandas da pesquisa farmacêutica.

Inovação sob encomenda

Durante o desenvolvimento do primeiro reator, o equipamento foi desenhado e construído com base nas necessidades do laboratório do Professor Alzir, na UFSCar, que centraliza suas pesquisas na investigação de soluções líquidas. “Por isso, fiz um reator em forma radial. O líquido fica no centro, de forma que a luz incide em toda a sua superfície, e a estrutura espelhada otimiza todo o sistema”, conta Possatto, um veterano em Instrumentação Óptico-Eletrônica.

No caso da pesquisa contra o câncer, que trata de material biológico, a história fica um pouco mais complicada. O objetivo principal é descobrir se a luz melhora a ação de alguns fármacos específicos. “Vamos aplicar o composto sem a incidência de luz, e depois no aparelho, com a presença de luz, para saber se a terapia fotodinâmica causa maior atividade nas células cancerígenas”, conta Alzir.

Alguns compostos são liberadores de óxido nítrico, uma molécula com muita atividade biológica, inclusive com propriedades anticancerígenas. O novo aparelho deverá conseguir excitar estes compostos orgânicos e inorgânicos, através das luzes emitidas pelos LEDs, para facilitar a emissão das moléculas de óxido nítrico. “Basicamente, isso promoveria maior atividade anticancerígena”, explica Alzir.

Para o fim desta pesquisa, o formato radial não é viável. “Os objetos de pesquisa precisam ser aplicados em microplacas, que são planas, então a luz deve ser aplicada na vertical, tanto de cima quanto de baixo”, explica Possatto.

Esta inovação no equipamento deve gerar uma nova patente, além daquela já obtida a partir do desenvolvimento do primeiro reator. “Digamos que é uma inovação sob encomenda”, brinca o químico, contando que, além de suprir necessidades de seu próprio laboratório, o equipamento também será abrigado por diversos laboratórios no país que se empenham nas pesquisas com a terapia fotodinâmica.

Nesta etapa do novo projeto, Possatto se encarrega de confeccionar um desenho para o equipamento, ao que se seguirá a montagem do protótipo físico. “Em dois meses, no máximo, isso estará pronto”, prevê ele.

A essência continua a mesma

O funcionamento do reator continua sendo o mesmo. Não há diferença estrutural no equipamento, no caso de tratamento de material biológico ou de material inorgânico. “O cuidado deve vir da parte do pesquisador, na adequação do tipo de luz que ele vai usar”, conta Alzir. No trabalho com cinética química, por exemplo, é desejável apressar a reação, então a luz pode ser utilizada em vários comprimentos de onda diferentes. “Porém, no tratamento de um fármaco, existe uma janela adequada, que seria da ordem de 600 nanômetros, uma luz de energia mais fraca, ou podemos degradar as células”, explica o pesquisador. “Na região do visível, a luz é mais segura para os materiais biológicos”.

O tratamento do câncer por terapia fotodinâmica não é exatamente uma novidade. No próprio IFSC-USP, uma bem-sucedida pesquisa resultou na distribuição, no Sistema Único de Saúde, de um aparelho de diagnóstico e tratamento do câncer de pele através da emissão de luz. No caso do câncer de pele, uma área que é facilmente atingida pela luz, normalmente utiliza-se um composto químico que se liga às células cancerígenas, e o composto é ativado justamente através da incidência da luz. Antes da aplicação da luz, em um comprimento de onda específico, a substância ficaria “inerte”. Com o composto estudado pelo grupo de Alzir, o medicamento liberaria o óxido nítrico, tóxico para o câncer, e um grande adicional no tratamento.

“Todo fármaco tem efeitos colaterais, mas este método aumenta a seletividade do composto, que age menos sobre as células saudáveis, e diminui a toxicidade do composto”, conta Alzir. “A luz pode ser mais bem direcionada, podemos iluminar apenas uma região, o que é uma boa vantagem para o tratamento”, aponta Possatto. Ademais, este tipo de composto tem um tempo de vida relativamente curto no corpo humano, ou seja, depois de atacar as células danosas, o próprio organismo passa a eliminar a substância.

O diferencial é que, enquanto este kit trata-se de uma pesquisa aplicada, já disponível no mercado, o equipamento de Alzir e Possatto seria direcionado para a pesquisa básica, que buscaria um melhor entendimento e manipulação da terapia, testando a ação de novos compostos e aprimorando a ação dos já utilizados. A câmara viabilizaria tanto testes in vitro (com células isoladas) quando in vivo (em pequenos animais ou humanos), com objetivos centrados na observação e descrição da reação da molécula à luz, ao invés do tratamento clínico efetivo.

“Como dito, queremos saber qual é exatamente a influência da luz nos fármacos que estamos estudando através da aplicação em vários tipos de células tumorais: de mama, de pele, etc, mas até agora só fizemos testes sem a incidência de luz, por isso precisamos do equipamento”, completa Alzir.

“Sabemos que a terapia fotodinâmica tem sido uma vertente bastante explorada no tratamento de câncer, tem muitas vantagens, principalmente em se tratando de câncer de pele, então esperamos bons resultados, especialmente porque teríamos um medicamento bem mais eficiente”, finaliza ele.

 

(Edição: Rui Sintra – jornalista; Entrevista: Nicolle Casanova)

ENTREVISTA COM O PROF. JOÃO CALIXTO (UFSC) SOBRE PESQUISA E INOVAÇÃO EM MEDICAMENTOS NO BRASIL

março 22nd, 2012

Em entrevista, o Prof. Dr. João Calixto, docente e pesquisador do Centro de Ciências Biológicas – Departamento de Farmacologia da Universidade Federal de Santa Catarina, fala sobre a Pesquisa e Inovação em Medicamentos no Brasil e os desafios que existem para reduzir nossa dependência externa, um assunto que está preocupando a comunidade científica nacional.

Sabendo-se que o Brasil está entre os dez maiores mercados mundiais na área de medicamentos, existe algo contraditório, já que as empresas farmacêuticas nacionais ainda dependem da importação de princípios ativos, principalmente vindos da Índia, China e Coréia, na maior parte das vezes de origem laboratorial duvidosa. O Prof. João Calixto concorda com essa afirmação, acrescentando que essa é uma questão que não é só aplicada à área dos medicamentos, sendo, também, um problema que acontece em diversas áreas relacionadas com a média e alta tecnologia:

São problemas que ficam claros quando se observa o déficit comercial brasileiro em quase todas essas áreas. Quanto à área dos medicamentos, que é considerada um bem essencial, ela envolve uma tecnologia altamente complexa e importante. As grandes empresas que fabricam medicamentos encontram-se sediadas, basicamente, em seis países, mas isso não justifica que o Brasil tenha ficado para trás nessa corrida ou nessa disputa. Extrair petróleo do fundo do mar é mais fácil do que fazer um medicamento: então, porque é que um método dá certo e outro não? É tudo uma questão de política de Estado. Principalmente a partir da época do governo militar, foram definidas algumas estratégias consideradas como prioridades do Estado – Petrobrás, Embraer e Embrapa – e que duram até agora com sucesso. Nesse período, quer a área de medicamentos, quer algumas áreas dedicadas à eletrônica não foram entendidas como prioritárias para o país. Curiosamente, a ciência evoluiu bastante e, hoje, o Brasil ocupa uma posição estratégica em nível mundial, na área científica, mas não conseguiu acompanhar esse ritmo de desenvolvimento. Por outro lado, as empresas brasileiras, embora tenham parques fabris importantes, ainda têm um peso excessivo de empreendedorismo familiar, ou seja, trabalham em nichos de mercado, sobrevivendo, em grande parte, dos designados medicamentos genéricos, que foram criados há dez anos – refere o pesquisador.

Com efeito, e segundo a opinião do Prof. João Calixto, o Brasil possui grandes empresas farmacêuticas – principalmente no Estado de São Paulo -, com capital nacional, mas elas não possuem laboratórios de pesquisa, fazem pouca inovação e quase não se articulam com o meio acadêmico. Sabendo-se que o mercado brasileiro de medicamentos ocupa o sétimo ou oitavo lugar, no mundo, é curioso verificar que existe um déficit – recorde-se que o medicamento é um bem essencial, de caráter estratégico. A população vai envelhecendo, vai necessitando de mais cuidados, e o Brasil está com déficit na balança comercial na ordem dos US$ 11 bilhões nas áreas médica e hospitalar. Em comparação, a Índia continua a dar cartas, como explica o pesquisador:

Porque é que a Índia exporta toneladas de princípios ativos? Em 1996/1997 houve uma pressão internacional muito forte através da lei de patentes e, nessa época, o Brasil tinha uma dívida externa monumental, quase impagável, e essa questão da lei foi negociada de forma quase de forma impositiva, no nosso país. O Brasil aceitou a pior lei de patentes que se podia imaginar, com implantação imediata, mas retroagindo. Por sua vez, a Índia também foi pressionada, mas ela conseguiu condicionar a sua participação na lei até 2006, ou seja, ela ficou copiando formulações, chamou especialistas do exterior e teve tempo de se modernizar, transformando-se, por fim, num polo importante, jogando o Brasil lá para trás. Daí que tenha sobrado para as empresas brasileiras o conhecido medicamento genérico, mas de uma forma algo desarticulada, sem se ter tido determinados cuidados com sua fabricação. O Brasil importa os princípios ativos, mas depois existem problemas na qualidade dos produtos, incertezas nas dosagens, variação de preços, etc. Estamos numa situação difícil; somos a sexta economia mundial, um dos países no topo do desenvolvimento científico e, por outro lado, temos estes descompassos – comenta o pesquisador.

As relações entre empresas e universidades

Ao longo dos anos e até ao momento atual, as universidades e as empresas continuam de costas voltadas, cada uma falando seu idioma: não há uma interação plena, não há diálogos, apenas monólogos, fato que também tem contribuído para uma espécie de estagnação no setor. João Calixto não sabe se esse problema é uma causa ou uma consequência do que foi dito acima. Na opinião do pesquisador, para algumas pessoas a desculpa poderá estar no fato da ciência brasileira ser ainda muito jovem, mas segundo ele isso não é justificativa, já que a ciência pode ser jovem mas nascer moderna.

No Brasil, a ciência virou uma mercadoria de luxo, uma plataforma para enriquecer currículos, um status, em que as pessoas olham para o seu próprio umbigo e não estão nem aí para o país. Dizem, apenas “eu sou um cientista” e isso não existe em nenhum outro país. O cientista tem que estar inserido socialmente onde vive. A ciência não tem pátria, mas o cientista tem: ele tem um compromisso com seu país, que o está financiando. Essa falta de relacionamento e de diálogo entre universidades e empresas teve origem no falso conceito de que o cientista era dominado pelos interesses econômicos e produtivos das empresas; não há muito tempo atrás, qualquer grupo de pesquisadores que trabalhasse com empresas era imediatamente rotulado por seus colegas como “mercenário”, e isso é uma ideia completamente retrógrada. O mundo mudou e a visão tem que ser abrangente, moderna e flexível e temos que deixar de construir clones de nós mesmos (alunos). Todo mundo quer estudar para fazer concurso público, para ter um emprego estável, ninguém quer ser inovador, ninguém quer arriscar; o próprio cientista não quer arriscar. E, não tendo riscos, esta nova geração de estudantes, de doutores, vai trilhar os mesmos caminhos de seus mestres e esses caminhos a gente sabe onde vão dar – a uma ciência sem inovação. Para que as ideias, projetos e ações não fiquem amorfos, sempre tem que existir a crítica, salutar e pertinente, construtiva. Já reparou que nosso modelo científico e tecnológico não tem crítica há longos anos? Parece um clube cujos membros só querem receber elogios e honrarias, onde todos querem dinheiro mas ninguém fala que é necessário mudar o rumo da ciência do país, que é preciso mais comprometimento, mais e melhor avaliação, mais inserção social, necessidade de ter o setor produtivo do lado dos cientistas. O que todo o mundo quer é ter uma zona de conforto, escrever “papers” ou ver seu nome inserido em alguns, para falsamente engrossar seu currículo: só isso não basta – desabafa João Calixto.

A Burocracia do Estado

A burocracia das agências de fomento à pesquisa é um apêndice da burocracia do Estado e, por isso, muita coisa no Brasil foi feita para não funcionar. Esta humorística afirmação de João Calixto foi feita com um sorriso de tristeza, ao exemplificar, de seguida, casos verdadeiramente impensáveis:

Vou dar um exemplo para você, relacionado com biodiversidade, onde os cientistas recebem dinheiro do Estado para desenvolver pesquisa e que, na sequência, esses cientistas estão proibidos, por lei, de aplicá-la. Temos casos de indústrias que foram recentemente punidas pelo Estado, porque fizeram experimentos sérios na área de biodiversidade, desenvolvendo produtos inovadores, na sequência de pesquisas subsidiadas. Assim não dá! Por outro lado, a burocracia do Estado cobre e protege muita incompetência de todo esse processo; contudo, a burocracia não é culpada de tudo o que acontece. Há no Brasil uma série de leis que justificam aquilo que não devia ser justificado e a burocracia é uma delas. Não se pode reclamar que não existe dinheiro. Existe e muito! Só que o dinheiro que é investido não é proporcional aos resultados que se obtém; não há uma verdadeira estratégia nacional, uma política de Estado para as áreas de ciência e tecnologia – pontua João Calixto.

O futuro

Já que o Brasil não possui centros capazes de fazer inovação, o Prof. João Calixto foi desafiado pelo governo federal para ajudar a neutralizar o grande gargalo que existe na área de medicamentos, através da criação e construção de um centro, com padrão internacional, que fosse capaz de fazer essa ligação. O desafio foi aceito, o centro está praticamente pronto, mas o pesquisador se confronta agora com algo inusitado:

Você não imagina o quão difícil está sendo apetrechar o centro com recursos humanos de alta qualidade. É um drama! Você chega à conclusão que, apesar do Brasil formar milhares de doutores, não existe gente altamente qualificada nas áreas de ponta, ou seja, o país é obrigado a trazer especialistas de fora. As pessoas ficam assustadas, mas o certo é que se o país nunca fez medicamentos, como é que se resolve esse problema? Trazendo especialistas de fora para nos ensinar, para nos atualizar e modernizar. Isto é sério! Os cientistas perdem a noção da realidade, pois não saem de dentro da universidade e perdem o compasso – refere João Calixto.

Para o nosso entrevistado, o futuro não vai ser fácil, até porque o país está adiando muitas decisões que já deveriam ter sido implantadas há pelo menos dez anos. Para o nosso entrevistado, o Brasil está formando doutores clones de seus mestres e a tendência é perpetuar procedimentos:

A área de Ciências Exatas está em déficit no país e isso é altamente prejudicial para o desenvolvimento nacional. O país tem que alterar rapidamente o rumo, mas essa mudança de quadrante não vai agradar a muita gente, especialmente aos políticos. Estamos enviando milhares de estudantes e pesquisadores para o exterior, através de bolsas de estudo, por forma a se capacitarem, e isso é extraordinariamente positivo, mas levanta uma outra questão: para que universidades é que esses estudantes e pesquisadores estão indo? Elas são de qualidade? Quando esses estudantes e pesquisadores regressarem, qual será o retorno desse esforço nacional? Não seria mais eficaz e mais barato trazer gente de fora, altamente capacitada, para nos ensinar – como fez a China, Índia e Coreia? Só que os espaços que existem para se fazer estas discussões e reflexões são muito pequenos, ou simplesmente não existem. O futuro está difícil.

 

(Rui Sintra – jornalista)

CIENTISTAS DA USP E UFSCAR FORMAM PARCERIA NA BUSCA DE NOVA SOLUÇÃO PARA TUBERCULOSE

março 20th, 2012

A Tuberculose humana é uma doença responsável pela morte de dois milhões de pessoas anualmente ao redor do mundo, sendo que o número de infectados pela bactéria M. tuberculosis sem necessariamente manifestar a doença é ainda mais alarmante, chegando a um terço da população mundial.

Com uma origem que remonta ao período entre o sétimo e sexto milênio AC, esta bactéria é conhecida pelo seu crescimento lento e pela sua veiculação aérea, provocando um ciclo de transmissão através de perdigotos (saliva espelida através da tosse) eliminados por pacientes que sofrem de tuberculose.

Entre os países desenvolvidos industrialmente, a atenção médica e a introdução dos primeiros fármacos direcionados ao tratamento da doença levou a um grande otimismo em relação ao controle e erradicação da bactéria.

Ironicamente, este mesmo cenário acabou por desestimular a indústria farmacêutica no desenvolvimento de novos fármacos que, nos últimos 40 anos, introduziu no mercado poucos medicamentos alternativos contra o bacilo da tuberculose, principalmente devido ao pouco retorno financeiro que o investimento proporcionaria.

Este fator, associado a uma série de mudanças sociais, políticas, econômicas e de saúde pública, além dos fenômenos de urbanização, pobreza e desigualdade, motivou um preocupante ressurgimento da doença a partir dos anos 80, especialmente em países de terceiro mundo. Agravando este quadro, o fornecimento irregular de fármacos, a prescrição médica inapropriada e a baixa adesão do paciente ao tratamento deram origem a uma nova geração da bactéria, mais resistente às drogas disponíveis, o que torna esta doença um dos maiores desafios da medicina moderna.

Atentos à urgência de uma solução inovadora para o problema, o professor Alzir Batista, do Departamento de Química da Universidade Federal de São Carlos, juntamente com o professor Javier Ellena, do Instituto de Física de São Carlos (IFSC-USP) e a Dra. Clarice Queico Leite, da Faculdade de Farmácia da UNESP de Araraquara, engajaram-se na luta contra a tuberculose, trabalhando no desenvolvimento de novos fármacos para aplicação em um regime de tratamento mais curto – o tratamento atual tem duração, em média, de seis meses.

 

Uma nova resposta para um velho problema

A parceria entre Batista e Ellena teve início em 1998, e já rendeu muitos resultados significativos, inclusive na investigação de fármacos contra o câncer e contra as chamadas doenças negligenciadas.

No que diz respeito ao projeto específico contra a tuberculose, os pesquisadores procuram investigar as barreiras biológicas que devem ser ultrapassadas por medicamentos até seu alvo específico dentro do corpo, ou seja, os problemas de transporte que acabam por reduzir a eficácia do fármaco contra a doença. Isso quer dizer que, além de provar que o medicamento tem um bom desempenho na ação contra um micro-organismo causador de enfermidades, os pesquisadores também têm de provar que, no interior do corpo humano, este medicamento conseguirá encontrá-lo, chegar até ele e combatê-lo, sem que outros processos biológicos e barreiras físicas, como órgãos e outros tecidos, prejudiquem ou sejam prejudicados pela sua ação. “Para isso, utilizamos os chamados cargadores, que são moléculas maiores e mais flexíveis, com propriedades específicas que as permitem passar através de tecidos e levar os agentes do medicamento até o lugar de origem da doença, que no caso da tuberculose é uma enzima específica”, conta o professor Javier Ellena, do IFSC-USP. Estas moléculas estão intimamente relacionadas à atividade de complexos organometálicos de rutênio, um dos grandes interesses de pesquisa da parceria IFSC/UFSCar desde sua origem.

Segundo Ellena, os complexos organometálicos tem sido um campo de exploração relativamente recente, pois, geralmente, inserir estes complexos no corpo humano não é uma boa ideia. “Nós temos estes complexos no corpo, mas em pouca quantidade”, aponta ele. “Em grande quantidade, eles podem se ligar a algumas proteínas e danificá-las, causando intoxicação”, completa.

O mercúrio, que se encaixa nesta categoria de íons pesados, causa um grande número de intoxicações graves no Brasil através do seu uso por garimpeiros na extração de ouro da terra. É por esta razão que os pesquisadores trabalham com o rutênio, um complexo mais estável, mais tolerado pelo organismo humano (portanto menos perigoso) e muito mais bem estudado pela ciência. “O principal diferencial entre o tratamento atual e este novo fármaco é este cargador, ou seja, temos um novo sistema de liberação dos agentes. É uma nova resposta para um velho problema”, esclarece o pesquisador.

Os testes “in vitro” – aplicação do medicamento em proteínas isoladas em laboratório – já foram realizados com ótimos resultados, além dos testes “in vivo”, em pequenos animais. O próximo passo é dar início a experimentos clínicos, em humanos, o que exige grandes preparativos e financiamentos, além de parcerias com empresas farmacêuticas responsáveis pela supervisão dos testes.

Mas uma das grandes superações do projeto foi a investigação da atuação do composto desenvolvido pelos pesquisadores sobre a enzima específica que é fonte da tuberculose no corpo humano. “Em uma colaboração com a Dra. Rosilene Fressatti Cardoso da Universidade Estadual de Maringá, o projeto conseguiu entender melhor a atuação do fármaco dentro do corpo, o que é muito difícil em qualquer medicamento. Normalmente, sabemos qual é seu efeito, sabemos provocar um efeito específico, mas entender sua ação no organismo de fato é um mistério”, conta Batista. A pesquisadora sugeriu que a atuação dos compostos obtidos pelo pesquisador da UFSCar ocorre a nível de biossíntese, na parede celular das bactérias.

 

Visão multidisciplinar

Os laboratórios do Departamento de Química, da UFSCar, são responsáveis pela síntese dos potenciais fármacos, ou seja, a arquitetura do medicamento, a previsão de sua atividade e seu processamento em laboratório para a obtenção do produto final.

Já os laboratórios do Grupo de Cristalografia do IFSC colaboram, mais especificamente, com a parte que diz respeito à caracterização e controle de qualidade de insumos farmacêuticos em estado sólido, ou seja, em forma de comprimidos. “Normalmente, quando se desenha um fármaco, costuma-se pensar em uma produção em pequena escala, mas para garantir que as maiores quantidades utilizadas em testes em laboratório tenham uma ação idêntica ao fármaco pensado originalmente, precisamos fazer uma análise físico-química e verificar se o processo resulta no mesmo produto, com as mesmas qualidades”, explica Ellena.

O professor Alzir, coordenador do projeto, conta que a chave para o bom desenvolvimento da pesquisa é justamente esta interdisciplinaridade. “Em colaboração, podemos obter resultados muito melhores do que aqueles produzidos sozinhos”, complementa o professor Javier. “Conseguimos, em conjunto, produzir o primeiro medicamento inorgânico contra a tuberculose”, comemora Alzir.

Em países desenvolvidos, segundo Batista, um fármaco leva em média quinze anos para ser disponibilizado no mercado. O caso da tuberculose é ainda mais complexo, pois continuam a ser pouco atrativos, enquanto investimento, para empresas farmacêuticas internacionais, que já não investem em pesquisas voltadas ao problema. “Os atingidos pela tuberculose compõem uma parcela da população de baixo poder econômico, ou seja, o tratamento não retorna lucro”, observa Javier.

As ações preocupadas com as doenças negligenciadas, por exemplo, não são intensamente incentivadas por empresas privadas: resta às Universidades essa árdua e honrosa tarefa. “É uma responsabilidade nossa transformar pesquisas em benefícios à população, que nos mantém trabalhando”, completa.

O fármaco inovador, portanto, além de acenar para a possibilidade de um tratamento mais ágil, atuaria com maior eficiência, com menos efeitos colaterais e pode ser utilizado em conjunto com outros medicamentos, em uma terapia mista, como um coquetel.

Devido a estas otimistas perspectivas, o professor Alzir Batista foi convidado para o conceituado Congresso Europeu de Química Inorgânica Biológica, que acontecerá em setembro na Espanha, para apresentar os resultados das pesquisas desta parceria.

Para maiores informações, acesse http://www.eurobic11.com/

 

(Rui Sintra – jornalista, com Nicolle Casanova)

PESQUISA TESTA ANTIBIÓTICO PARA TRATAR ESQUIZOFRENIA

março 7th, 2012

Psiquiatras do Brasil e Inglaterra estão testando o uso de um antibiótico para o tratamento de pessoas com esquizofrenia.

No Brasil, o Prof. Jaime Hallak, pesquisador e docente da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (SP) e que conduz as pesquisas, refere que a minociclina, receitada para o tratamento de acne, tem propriedades anti-inflamatórias e protetoras do cérebro.

Segundo matéria jornalística divulgada recentemente, trinta pacientes participaram, no Brasil, de um estudo com este remédio, enquanto que outros cento e setenta doentes colaboraram nas pesquisas realizadas em Inglaterra e no Paquistão.

A ideia de usar um antibiótico contra o transtorno mental, que afeta 1% da população mundial, surgiu após estudos realizados com animais, que demonstraram uma ação neuroprotetora da minociclina. Segundo o pesquisador brasileiro, o antibiótico foi então testado contra doenças neurodegenerativas, mas percebeu-se que os pacientes com sintomas psicóticos também acabavam melhorando.

Os trinta participantes brasileiros tinham o diagnóstico de esquizofrenia há cerca de cinco anos e faziam tratamento com diversas drogas antipsicóticas. Na experiência, o antibiótico foi acrescentado à terapia de uma parte do grupo, enquanto a outra serviu como controle.

Os pesquisadores observaram, então, uma melhora nos sintomas do transtorno. A esquizofrenia é caracterizada por diferentes sintomas: psicóticos (ouvir vozes e ter delírios, por exemplo), dificuldades cognitivas e de vocabulário e falta de motivação e de interesse em relações pessoais.

Para o Prof. Helio Elkis, coordenador do Projesq – Projeto Esquizofrenia, do Instituto de Psiquiatria da USP, o principal ganho com o antibiótico é a melhora dos sintomas não psicóticos.
Para sintomas psicóticos, como alucinações e delírios, os antipsicóticos usados hoje funcionam bem. Segundo ele, a grande busca é por um tratamento para sintomas como o desinteresse em outras pessoas, que são os que mais dificultam os relacionamentos das pessoas com esquizofrenia.

Exames de imagem por ressonância magnética estrutural do cérebro, feitos em vinte e quatro dos trinta participantes do estudo, mostraram que quem usou o antibiótico teve uma proteção maior do sistema límbico, principalmente do cingulado anterior, região ligada à cognição e motivação.

Segundo o Prof. Hallak, isso indica efeito da substância contra os problemas cognitivos enfrentados pelos doentes, mesmo fora das crises agudas, como os de linguagem.

A expectativa não é substituir os antipsicóticos pelo antibiótico, mas somá-lo ao tratamento. A minociclina já é aprovada para uso em humanos, mas não para o tratamento da esquizofrenia. Em breve, diz o médico, os resultados desta pesquisa serão publicados em uma revista científica.

(Rui Sintra – jornalista, com informações da Folha)

CRITÉRIOS DE AVALIAÇÃO DA PRODUÇÃO CIENTÍFICA DE PESQUISADORES VÃO INCLUIR INOVAÇÃO E DIVULGAÇÃO DE PROJETOS EM JORNAIS

março 5th, 2012

O CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico vai alterar sua plataforma eletrônica Lattes – que reúne os currículos e atividades de cerca de dois mil pesquisadores nacionais – acrescentando duas novas abas para divulgação pública.

Em uma delas, os cientistas brasileiros terão de informar particularidades sobre a inovação de seus projetos e pesquisas, enquanto na segunda aba eles deverão descrever iniciativas de divulgação e de educação científica.

Com a introdução destas duas novas abas na Plataforma Lattes, cientistas de todos os campos de investigação deverão descrever dados sobre, por exemplo, organização de feiras de ciências, promoção de palestras em escolas e artigos e entrevistas concedidas à imprensa, além das informações que já faziam parte da plataforma, como dados pessoais, formação acadêmica, atuação profissional, publicações, linhas e projetos de pesquisa, áreas de atuação e domínio de idioma estrangeiros.

Segundo notícia divulgada pela Agência Brasil, que ouviu Glaucius Oliva, Presidente do CNPq, a intenção deste órgão é aumentar o conhecimento da sociedade sobre as atividades científicas que se realizam no país: No século 21, o cientista reconhece seu papel de engajamento na sociedade, ele sabe que está sendo pago e financiado e que deve uma prestação de contas sobre o que faz. Contudo, ainda há um fosso grande entre aqueles que fazem ciência e aqueles que consomem e financiam a ciência. A sociedade não conhece com profundidade toda a riqueza que a ciência brasileira tem contribuído para o desenvolvimento nacional, refere Oliva.

Segundo o Presidente do CNPq, passa a ser papel dos cientistas dar publicidade de suas atividades de pesquisa, mostrar experimentos e explicar projetos para o público, e ligar o trabalho a inovações que contribuam com as políticas públicas e até mesmo para a criação de novos produtos a serem lançados no mercado.

A mudança na plataforma Lattes poderá ocorrer em até dois meses.

O modelo e a funcionalidade das abas já estão formatados e respeitarão as regras de transparência de informações públicas.

O CNPq muda já na próxima semana o portal www.cnpq.br que, entre outras funções, permite acesso à plataforma Lattes.

Os novos dados informados serão considerados pelos 48 comitês de avaliação do CNPq, quando forem aprovar projetos de pesquisa e conceder bolsas de estudo a professores e estudantes universitários, sendo que o Conselho terá indicadores para avaliação dos trabalhos científicos em quesitos de inovação e de produção em divulgação científica, como ocorre hoje com a cobrança de publicação de artigos científicos, os papers, em revistas especializadas, inclusive do exterior.

O CNPq exige, desde junho de 2010, que na submissão eletrônica das propostas de pesquisa e nos relatórios eletrônicos de concessão científica, sejam descritos, “em linguagem para não especialistas”, a relevância do que está sendo proposto e os resultados atingidos.

Glaucius Oliva referiu à Agência Brasil que: com isso, passamos a ter um banco fantástico para alimentar [com dados] os jornalistas.

Segundo Oliva, o sistema terá busca de projetos e relatórios por palavras-chave, instituição e área geográfica.

Por ano, cerca de 15 mil propostas de pesquisa são recebidas pelo Conselho no edital universal (para todas as áreas do conhecimento).

Com a divulgação das propostas e relatórios, a expectativa de Oliva é despertar o interesse de “jovens talentos” para a ciência e criar uma nova cultura acadêmica em quatro anos – aproveitando o aumento significativo de novos mestres e doutores formados no Brasil.

Na década passada, esse número dobrou, tendo atingido mais de 50 mil em 2009.

Além de mudar a cultura no ambiente acadêmico, o presidente do CNPq refere que a divulgação de trabalhos e a educação científica podem alterar o comportamento social: As pessoas têm que usar a ciência no dia a dia. Entender, por exemplo, que há relações de causa e efeito. Educar para os valores da ciência e para o método científico na vida pessoal nos protege de extremismos e intolerâncias, acrescenta o Presidente do CNPq.

 

(Rui Sintra, jornalista, com informações de  Gilberto Costa e Lana Cristina – Agência Brasil)